Turismo

“Viajar é muito mais do que conhecer lugares, é também evoluir como pessoa”

De Ipatinga, em Minas Gerais a Rio Branco, no Acre, passando por longas viagens de ônibus sem ar-condicionado até voos de primeira classe com bastante desconto por conta do uso de estratégias de milhas: a trajetória de Heron Alonso parece um roteiro de cinema. Ex-bancário, apaixonado por aviação desde criança e inspirado por fitas VHS que chegavam dos Estados Unidos, ele transformou a curiosidade de menino em uma carreira que hoje influencia milhares de viajantes a realizarem seus próprios sonhos.

Na conversa com o Pronto Pra Viajar, Heron abre o jogo sobre os bastidores do mercado de milhas, revela desafios, compartilha histórias emocionantes e mostra como é possível transformar gastos do dia a dia em experiências de alto padrão. Com a leveza de quem fala de algo que ama e a seriedade de quem entende do assunto, ele deixa claro: viajar não é apenas conhecer novos lugares, é também evoluir como pessoa.

Evolução essa que ele experimentou na pele. Das primeiras viagens feitas na raça, juntando o pouco que tinha para percorrer o Brasil, até os grandes saltos que o levaram a viver experiências inesquecíveis em destinos internacionais, Heron coleciona muitos aprendizados. Cada embarque virou uma aula prática de resiliência, estratégia e paixão por viajar — ingredientes que ele compartilha hoje com uma audiência fiel que vê nele não só um especialista, mas alguém que vive intensamente o que ensina.

Ao longo dessa entrevista, ficou evidente que a história do Heron não é apenas sobre acumular milhas ou emitir passagens mais baratas. É sobre acreditar que a vida pode ser maior que as dificuldades, que viajar é um direito possível e transformador, e que sonhar alto é o primeiro passo para chegar mais longe.

Confira a entrevista na íntegra:

PPV: Como surgiu sua paixão por aviação e programas de fidelidade, e de que forma isso se transformou em um projeto de vida e de carreira?

HA: Foram duas situações marcantes. Começou com meu tio, que foi embora para os EUA quando eu tinha 7 anos de idade. A última imagem que ficou foi a dele entrando no avião, lá na cidade de Ipatinga (MG), e decolando nos ares. Isso foi em 1987. Nos próximos anos passamos sempre na expectativa de receber novas fotos ou as fitas VHS com os vídeos de suas viagens pelos Estados Unidos. O coração batia forte cada vez que eu apertava o “play”. Ele adorava viajar e, já naquela época, filmava tudo e narrava em primeira pessoa, semelhante ao que temos nos stories hoje em dia. Foi uma das grandes inspirações para os vídeos que faço e compartilho hoje, quase sempre ao vivo, bem diferente dos 40 dias que demorava para chegar uma fita de vídeo nos anos 80-90.

Eterno apaixonado pela aviação

Eu quase fui morar com ele nos EUA mas, por coisas do destino, acabei me mudando de Ipatinga (MG), para Rio Branco (AC). E aqui começa a segunda situação marcante. Eram quase 70 horas de ônibus, sem leito e sem ar condicionado. Naquela época era caríssimo viajar de avião, e muito raro ter ar condicionado nos ônibus. Um sofrimento enorme que obrigou a minha mãe a aprender a economizar pra viajar de avião, e também a acumular milhas para reduzir o custo. Naquela época já tínhamos conta na Smiles (que ainda era o programa de fidelidade da Varig) e no Tam Fidelidade (hoje, LATAMPASS).

Fato curioso: eu só fui encontrar pessoalmente com esse meu tio agora em agosto de 2025, ou seja, quase 40 anos depois!

PPV: Quais foram os principais desafios que você enfrentou ao decidir empreender no universo digital e se tornar referência em milhas e cartões de crédito?

HA: Primeiro, preconceito e oposição de colegas de trabalho e chefia. Quando comecei, ainda trabalhava na diretoria do Banco do Brasil. Além disso, estudar e entender o mercado digital, principalmente após grande formação e tempo dedicados a atender empresas tradicionais. E finalmente trabalhar produzindo conteúdo todos os dias, sem exceção, inclusive durante férias e viagens, sem qualquer perspectiva de retorno financeiro – bem diferente da CLT.

PPV: Que valores pessoais você procura imprimir no conteúdo que compartilha com seu público?

HA: Credibilidade, seriedade e confiança.

PPV: Qual sua visão sobre a evolução do mercado de milhas aéreas no Brasil e como você acredita que ele impacta a democratização das viagens?

HA: O mercado de fidelidade cresceu exponencialmente nos últimos 10 anos. O principal motor desse crescimento é a Livelo, que foi fundada em 2014 e iniciou suas operações em 2016, democratizando, inovando e revolucionando a forma de acúmulo de milhas. Agora, não é mais apenas viajando ou usando o cartão de crédito. Qualquer pessoa pode acumular milhares de milhas até pagando no Pix ou boleto. A Livelo também lançou o primeiro clube de fidelidade para acúmulo de pontos, além compra de pontos com desconto, bonificações, transferência de pontos mais dinheiro e inúmeras outras formas de acúmulo. Daí surgiu o mercado paralelo de compra e venda de milhas, que turbinou esse crescimento e atraiu ainda mais pessoas. Foi a segunda onda de crescimento. Já na pandemia, surgiram inúmeros influenciadores e os grandes cursos e mentorias, que colocaram ainda mais combustível, democratizou e transformou o mercado de milhas em tudo que vemos hoje.

Há quem acredite que o “mercado acabou”, que “agora ficou tudo ruim”. Isso não é verdade. Todo mercado é cíclico, passamos por um período de grande bonança em função da pandemia, com as empresas vendendo muitas milhas a preço de banana para gerarem caixa e não quebrarem. Como muita gente começou nessa época e acreditaram que sempre seria assim, geraram expectativa errada. Também houve aqueles que venderam sonhos e promessas mirabolantes, enganando muita gente.

Quem já era do mercado há mais tempo já sabia que aquilo tudo era temporário e que um dia ia passar. Com isso, ao voltar ao normal, muitos ficaram para trás ou mudaram de mercado. Mas eu digo e afirmo com toda certeza: não apenas não vai acabar, com ainda vai crescer, e muito. Programas são extremamente lucrativo para as empresas, gerando retornos bilionários, fundamentais nos negócios. Quem ainda não entrou, pode ficar tranquilo: ainda tem bastante água pra rolar.

PPV: Muitos brasileiros ainda têm dúvidas sobre o funcionamento de programas de fidelidade. O que você considera ser a maior barreira de entrada para esse público e como superá-la?

HA: Medo, descrença e a falta de interesse. O medo vem do desconhecido e agora daquele criado pelas recentes quebras e prejuízos de empresas no mercado. A descrença vem da falta de conhecimento. Já encontrei pessoas que simplesmente não acreditam, que duvidam mesmo, acham que não é possível. Como há muitos charlatões, cujo conteúdo muitas vezes chegam de forma suspeita para as pessoas, essa descrença e desconfiança aumentam. E a falta de interesse vem por desconhecer bem a existência. A pessoa muitas vezes sabe que tem aquilo lá, mas por não ter uma divulgação muito forte, acaba ignorando. Nos 3 casos, a forma de superar é justamente o conhecimento, a educação – que é justamente a minha área de atuação. É necessário chamar a atenção para aquilo que elas estão perdendo e as oportunidades que podem ganhar. Depois, gerar conteúdo mostrando e ensinando como e por que fazer. Dar exemplos e juntar essas pessoas com aquelas que já fazem. Pronto, assim ela está convencida e não sairá mais.

Desfrutando a cabine executiva da Delta Airlines

PPV: Onde você enxerga as maiores oportunidades de crescimento no mercado de milhas aéreas para os próximos anos?

HA: Na visão dos clientes e viajantes, novas oportunidades sempre vão surgir. Mas elas não são e nem serão estáticas. É fundamental acompanhar as mudanças, estudar e fazer um planejamento de curto prazo. O ideal é girar as milhas em até 12 meses – e se forem milhas pagas, quanto antes usar, melhor. Como é impossível prever o que vai acontecer, é fundamental participar de grupos de viajantes, ler as notícias e ouvir a opinião dos especialistas.

PPV: Como você enxerga o papel das companhias aéreas, bancos e administradoras de cartões nesse ecossistema? Elas têm se adaptado ao perfil cada vez mais informado dos clientes?

HA: A gente precisa entender que essas empresas são empresas e não ONGs. Elas estão nisso para ganhar dinheiro, para lucrar. Logo, a imensa maioria das pessoas não vai aproveitar o mercado da melhor maneira possível. Eu diria que mais de 90% não usam ou não sabem como usar devidamente as milhas que acumulam. A Livelo lucrou incríveis 1 bilhão de reais em 2024, batendo recorde. O lucro proveniente dos programas de fidelidade das cias aéreas, não raro, superam o da atividade final. Não apenas no Brasil, mas em outros países também. Elas vem sim se adaptando ao cliente mais informado e preparado, mas eu acredito que mais em função do “barulho” que nossa turma gera, do que pelo volume de clientes propriamente dito.

Lembra que falei que mais de 90% sequer tem noção de como isso funciona de verdade? Apesar disso, esses 10% conhecem bem e cada vez mais, e incomodam bastante quando as empresas falham, cometem abusos ou não informam direito.

PPV: Nos últimos anos, vimos muitas mudanças em programas de fidelidade e no setor de cartões. Que inovações recentes você destacaria como mais relevantes para o viajante brasileiro?

HA: Para mim, a possibilidade de comprar milhas a baixo custo em vários programas nacionais e internacionais abriu uma porta enorme para quem domina o tema. Eu posso não acumular nada no orgânico e, ainda assim, economizar 90% numa passagem aérea com tranquilidade. A criação de sistemas de múltiplas pesquisas (como o app Seats Aero), grupos de alerta de emissões gratuitos e pagos, sistemas de mapeamento (app Flight Connections), dentre outros, facilitou demais a vida do milheiro. No meu início não tinha nada disso, era tudo na mão! Hoje, só fica de fora quem quer. Está muito mais fácil.


PPV: De que maneira você busca inovar no seu conteúdo e nos produtos que oferece para manter relevância em um mercado tão competitivo?

HA: Fazendo o que sempre fiz: ouvindo meu cliente, meu aluno, meu seguidor. Entendendo a realidade dele, as novas necessidades, e fazendo um link disso com as novas tecnologias. E, acima de tudo, tratando cada um com respeito e com a real intenção de ajudar e de transformar. Assim, criamos relações duradouras e aprendemos a fidelizar nossos clientes, tal qual o mercado de fidelidade faz.

PPV: Algumas críticas e atitudes recorrentes do público envolvem mudanças repentinas em programas de milhas, dificultando os resgates no geral. Como você avalia esse cenário e de que forma orienta seus seguidores diante dessas frustrações?

HA: Eu acho uma sacanagem algumas coisas que acontecem. Eu sei que são empresas privadas, que podem e devem se ajustar. Mas o que vimos nos últimos anos foram verdadeiras rasteiras dadas nos clientes mais frequentes. Mudanças da regra do jogo no meio do jogo, mudanças sem aviso prévio, venda de milhas a preço de banana e, em seguida, reajuste de preço, tabela ou paridade, dentre outras aberrações.

Por isso eu sempre digo: não compre milhas para ficar estocando. Use. Somente estoque milhas geradas organicamente, e por pouco tempo. Na minha visão, até 12 meses nos nacionais, e de 24 a 36 nos internacionais. Fazendo isso você reduz significativamente seu risco, apesar de poder perder algumas oportunidades eventualmente.

PPV: Já houve situações em que você recebeu críticas ou enfrentou polêmicas por conta de parcerias ou posicionamentos no setor? Como costuma lidar com isso?

HA: Já sim, por posicionamentos. Parcerias, nunca. Só não é criticado quem não está fazendo nada ou não faz direito. Receber críticas deve ser visto como algo positivo, principalmente se vier de pessoas com crenças diferentes da sua, com menos conhecimento ou que não fazem parte do seu público-alvo. O que não pode é ter predominância de críticas, ou ataques muito fortes da sua base. Se isso acontecer, você errou. E aí precisa parar, entender, reconhecer e corrigir o erro.

Experimentando o suco de laranja na executiva da Iberia antes de decolar

PPV: O que mais te surpreende no relacionamento com seus seguidores? Já houve alguma história marcante de transformação proporcionada pelo seu conteúdo?

HA: Um cara uma vez falou que, devido a uma dica minha, ele conseguiu vender um estoque de milhas e fazer uma cirurgia na vista, que ajudou a ele a voltar a enxergar direito. Nunca vou esquecer disso. Milhares de pessoas conseguiram, pela primeira vez, acessar uma sala VIP, viajar de executiva ou obter um cartão black, através de meus ensinamentos. Uma aluna uma vez conseguiu colocar 10 pessoas no mesmo voo, 5 na executiva e 5 na econômica, para os EUA, em pleno dezembro. Tudo com milhas adquiridas de forma muito barata. É maravilhoso!

PPV: Como você enxerga o papel dos influenciadores digitais no mercado de turismo e aviação? Eles complementam ou competem com as grandes empresas de mídia e informação?

HA: Complementam. Alcançam um público que a mídia não alcança. Não raro, muitos novos milheiros conhecem os sites especializados através do influenciador. É uma via de mão-dupla.

PPV: Quais são seus principais projetos para os próximos anos? Pretende expandir sua atuação para outras plataformas ou até para negócios offline?

HA: Por enquanto, vou continuar focado na educação online, que faz parte do DNA do nosso negócio. E sempre de olho nas necessidades do meu cliente. Se ele precisar de algo diferente, eu vou entregar. Seja através de expansão, seja de parcerias.

PPV: Se pudesse desenhar o cenário ideal para o viajante brasileiro em 10 anos, em termos de acessibilidade e benefícios, como ele seria?

HA: 10 anos é muito tempo. Conseguimos ver algum horizonte a, no máximo, um ano – e olhe lá. Devido às características do Brasil, a incerteza predomina em todas as áreas – e não apenas no setor de turismo. O mundo ideal é aquele em que o viajante se mantenha antenado e atualizado, sem se prender no que já foi. A única constante será a mudança.

PPV: Qual legado você gostaria de deixar no universo de viagens e milhas?

HA: Que viajar é mais do que tirar férias. É evoluir como ser humano, entender como o mundo funciona, é experimentar e vivenciar para formar opinião – e não formar apenas com o que os outros falam. Ninguém volta de uma viagem igual partiu, por menor que ela seja. Sempre voltamos melhor. E, sendo melhor, nos tornamos cidadãos melhores, profissionais melhores, pais melhores. Viajar é evoluir.

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