Como a inovação e a governança estão transformando o turismo religioso no Brasil
Teve início nessa terça-feira (11) a primeira edição do Fórum Regional Sudeste de Turismo Religioso, sediado no SEBRAE-ES, em Vitória. Com a presença de gestores públicos, especialistas do trade e lideranças dos principais destinos de fé do país, o encontro abriu sua programação focando em três pilares centrais: integração regional, posicionamento estratégico e inovação.
A solenidade de abertura destacou a urgência de tratar o turismo de fé não apenas sob a ótica da devoção, mas como um poderoso vetor de desenvolvimento econômico, infraestrutura e sustentabilidade para os municípios do Sudeste. “O turismo religioso é uma das maiores expressões de fraternidade universal e diálogo. Ele conecta a experiência espiritual à contemplação da beleza histórica, além de atuar como uma ferramenta de justiça social, combate à pobreza e preservação ambiental ao movimentar a economia local e valorizar o patrimônio”, declarou Dom Ângelo Ademir Mezzari, arcebispo da Arquidiocese de Vitória.
Complementando a visão institucional e econômica do setor, o superintendente do SEBRAE-ES, Pedro Rigo, ressaltou o papel da entidade em estruturar essa cadeia. “O turismo religioso conecta o negócio à fé das pessoas. O Espírito Santo possui uma riqueza histórica e espiritual enorme, e o papel do SEBRAE é apoiar o trade para transformar esse patrimônio em oportunidade, desenvolvimento e bem-estar, promovendo o estado como um destino estruturado para o turismo de experiência”, afirmou o executivo.
Espiritualidade e força do Sudeste
A palestra de abertura foi conduzida por Sidnésio Moura, consultor do SEBRAE e especialista no setor, que abordou o tema “Peregrinos e destinos: a força da espiritualidade no turismo do Sudeste”. Moura defendeu a necessidade de uma gestão integrada e profissionalizada no segmento. “O turismo religioso no Brasil precisa de um olhar técnico, científico e mercadológico. As lideranças religiosas entendem a dimensão espiritual, o poder público cuida da gestão e o trade entende de negócios. Nosso papel é juntar essas engrenagens em um único ambiente para que o setor funcione e avance com governança”, observou o especialista.
Casos de sucesso: do Convento da Penha a Aparecida
Um dos momentos mais aguardados da manhã foi o painel “Destinos que inspiram”, mediado pelo Padre Márcio Giordany, reitor da Basílica São Miguel Arcanjo, do interior de São Paulo. Ao abrir o painel, o sacerdote enfatizou a origem comunitária das rotas de fé. “Muitas cidades nascem da fé: surge uma capela, depois a paróquia e então o município. A devoção é a mola propulsora do turismo religioso, mas, no segmento católico, esse movimento só se consolida quando caminha em total unidade com a Igreja”, pontuou Padre Márcio.
O painel reuniu representantes de grandes ícones do turismo nacional e regional:
- Convento da Penha: Frei Gabriel Dellandrea abordou a força afetiva e geográfica do maior monumento do Espírito Santo. “O fator principal que torna o Convento da Penha um ícone do turismo religioso é que ele é um lugar de criação de memórias. Ele desperta tanto as lembranças do passado quanto o desejo de construir novas histórias em família”, explicou o guardião.
- Santuário Nacional de Aparecida: Jonatas Veloso detalhou a complexidade da acolhida no maior santuário do país. “Para entender e vivenciar o Santuário de Aparecida hoje, o visitante precisa de pelo menos dois dias. Nosso trabalho de gestão é garantir que a experiência de fé aconteça em cada detalhe: desde a infraestrutura e a grade de celebrações até a hospitalidade da nossa rede hoteleira”, ressaltou o representante do espaço.
O debate contou ainda com contribuições sobre o patrimônio de Congonhas (MG), apresentado pela Secretária de Turismo Ana Alcantara, o turismo contemplativo trazido pelo Monge Kendo Bitti (Mosteiro Zen de Ibiraçu) e a engenharia de eventos apresentada por Érica Semião (Festa da Penha).
Inovação, experiência e governança
No período da tarde, a programação seguiu com foco em modernização e nas novas demandas do mercado. O especialista em marketing digital e inteligência de destinos Thiago Akira conduziu a palestra e o talk interativo, detalhando a evolução do setor para o conceito de “experiências transformadoras”, uma atualização do pensamento de Joseph Pine, autor que fala sobre a “economia da experiência”. “O turismo evoluiu da venda de produtos para a economia da experiência, e agora chegamos ao momento das experiências transformadoras. O viajante contemporâneo não quer apenas visitar um lugar, ele busca voltar para casa melhor do que saiu. O grande diferencial dos destinos e do turismo religioso está em comunicar essa capacidade de transformação pessoal, de pausa e de reconexão”, destacou Akira.
Para ilustrar o conceito, o especialista compartilhou uma vivência pessoal durante a elaboração do Plano de Marketing do Espírito Santo, quando visitou as regiões de Domingos Martins e Caparaó. Akira revelou que a imersão nas histórias do cultivo, nas tradições familiares e na cultura do café artesanal capixaba mudou permanentemente seus hábitos de consumo ao voltar para casa. “A gente começa a entender que, no fundo, as viagens são essas transformações que as pessoas buscam. A viagem deixa de ser apenas o produto, e o produto passa a ser a transformação. No Plano de Marketing do Espírito Santo, nós desenvolvemos estratégias já pensando nisso. Como diferenciar o produto praia, montanha ou turismo religioso, se essa oferta existe em muitos lugares? Focando na transformação”, explicou.
Akira também ressaltou que a peregrinação é o ancestral do turismo transformador e abordou o movimento de viajantes que buscam rotas de fé não apenas pelo aspecto devocional, mas como uma resposta à exaustão do mundo moderno. “Ninguém mais tem tempo a perder. Buscamos caminhos como o “slow travel”, com ritmos mais equilibrados, e o “quiet luxury”, em que o silêncio virou artigo de luxo. Silêncio não é só ausência de barulho, mas silenciar o ruído do mundo, o excesso de informação e de telas. Hoje, o luxo é desacelerar, refletir e buscar essa reconexão”, completou o palestrante.
O encerramento do dia ficou marcado pelo painel “Governança que Transforma”, que ressaltou a importância de unir a gestão da Igreja, o resgate da memória histórica e o envolvimento das comunidades locais para a sustentabilidade dos destinos de fé. Durante o debate, o Padre Márcio Giordany reforçou a mensagem sobre a governança e unidade com a Igreja, citando a transformação de sua paróquia no interior paulista em Santuário e posteriormente Basílica. Ampliando a dimensão do patrimônio imaterial brasileiro, o Padre Daniel Aguirre chamou a atenção para o potencial de rotas históricas do país, como a dos Protomártires do Rio Grande do Norte, afirmando que “o Brasil possui uma riqueza histórica e devocional extraordinária que precisa ser mais bem trabalhada pelo turismo religioso” para conectar o visitante às raízes da cultura e da fé nacional.
