Turismo

Fórum do SEBRAE no ES destaca que turismo religioso avança como força econômica e social

A fé move multidões, mas a governança, a integração da cadeia produtiva do turismo e a profissionalização dos serviços são as engrenagens que transformam a devoção em desenvolvimento socioeconômico real para diversas cidades brasileiras. Essa foi a principal conclusão do segundo dia de debates do Fórum Regional Sudeste de Turismo Religioso, promovido pelo SEBRAE-ES em Vitória nessa semana, e que reuniu especialistas, operadores, gestores de grandes complexos e outras lideranças do setor. As apresentações percorreram desde o impacto econômico direto das grandes rotas devocionais e a aplicação do marketing nos destinos de fé até a urgência do acolhimento humanizado em tempos de automação acelerada.

Economia da fé e a transformação de pontos de passagem em destinos

A abertura do último dia de debates ficou a cargo do jornalista e pesquisador Amadeu Castanho, que apresentou uma análise detalhada sobre a força da economia impulsionada pelo turismo devocional. Castanho apontou que o grande gargalo da maioria dos municípios brasileiros com vocação religiosa é evitar que o visitante permaneça apenas como um excursionista de trânsito.

O jornalista e pesquisador, Amadeu Castanho

Para o especialista, o sucesso da atividade reside na capacidade das gestões locais em criar estruturas de recepção que retenham o peregrino no destino, estimulando a economia criativa, o comércio de rua e a hotelaria regional. “O turismo religioso funciona como uma verdadeira economia movida pela fé, capaz de transformar simples pontos de passagem em destinos finais por meio do acolhimento e da valorização da identidade local”, destacou Castanho.

O operador da agência especializada Turismo da Fé, Renato Duarte, reforçou que a motivação da viagem religiosa difere intrinsecamente do turismo convencional de lazer. Segundo Duarte, o peregrino busca um sentido de transformação pessoal, o que exige um alinhamento fino entre os agentes públicos, o comércio local e as instituições que administram os espaços de devoção.

Qualificação profissional e o papel do patrimônio imaterial

A mediação entre o visitante e o patrimônio histórico e espiritual foi o centro da intervenção de Leonardo Lares, presidente do Sindicato dos Guias de Turismo do Espírito Santo (Sindegtur-ES). Lares enfatizou que a qualificação técnica dos guias de turismo e dos turismólogos é a garantia de que o patrimônio de um destino não seja entregue de forma superficial. O dirigente destacou os investimentos em capacitação no Espírito Santo, ressaltando o preparo da categoria em múltiplos idiomas e em Língua Brasileira de Sinais (Libras), além do trabalho articulado com a Pastoral do Turismo da Arquidiocese de Vitória para formar intérpretes qualificados do acervo sacro capixaba.

Painelistas debateram a integração do trade com produtos de turismo religioso

A dimensão cultural do segmento foi complementada por Andrea Briolo, diretora do Sindbares e da Abrasel-ES. Briolo posicionou a gastronomia regional, com destaque para a tradicional moqueca capixaba, como um dos principais pilares na construção de memórias afetivas nos roteiros de fé. Para a executiva, a experiência do sabor traduz o território e a história de um povo, exigindo integração permanente entre a rede de restaurantes, a hotelaria e os receptivos locais.

Governança baseada em dados: o caso do Cristo Redentor

Um dos momentos marcantes da programação do segundo dia do fórum em Vitória foi a apresentação do Padre Omar Raposo, reitor do Santuário do Cristo Redentor, do Rio de Janeiro. O sacerdote compartilhou os resultados do estudo de impacto socioeconômico desenvolvido em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), que mensurou o peso do monumento na economia fluminense.

Os dados revelaram que o Santuário do Cristo Redentor injeta R$ 1,4 bilhão por ano na cidade do Rio de Janeiro e é diretamente responsável por fazer o turista estender sua permanência na capital por mais um dia. Padre Omar demonstrou como a mensuração de dados concretos permitiu atrair o apoio do Sistema S e de patrocinadores privados, consolidando o ícone religioso como um hub de desenvolvimento sustentável, geração de renda e projetos de inclusão social.

Padre Omar Raposo, reitor do Santuário Cristo Redentor

“Compreender o impacto econômico do patrimônio religioso é a chave para uma governança de sucesso. O estudo que realizamos comprovou que o Cristo Redentor injeta R$ 1,4 bilhão por ano na economia do Rio e retém o turista por mais tempo na cidade, provando que fé, preservação e desenvolvimento sustentável caminham juntos”.
Padre Omar Raposo, reitor do Santuário Cristo Redentor

Estratégias de marketing para vencer a pulverização da atenção

A programação teve ainda a apresentação de Joel Prado Neto, gerente de marketing da Canção Nova, dedicada à adaptação do Composto de Marketing Estendido (os 7 Ps) para as instituições e destinos devocionais.

Prado Neto alertou para os desafios da era digital, citando pesquisas que indicam que a média de atenção do consumidor em telas caiu para 47 segundos, enquanto as constantes interrupções digitais exigem até 24 minutos para a retomada do foco no trabalho. Diante desse cenário, o executivo destacou que os eventos presenciais de fé surgem como um porto seguro de engajamento: 95% das pessoas declaram confiar mais em uma marca ou instituição quando participam de uma experiência presencial.

  • Aplicação estratégica dos 7 Ps do marketing no turismo religioso:
ProdutoA entrega da experiência de transformação espiritual e o encontro pessoal
PreçoO custo percebido total da viagem (tempo, transporte, segurança e acolhimento)
PraçaPresença digital oficial e distribuição de conteúdo por meio de paróquias e comunidades
PromoçãoComunicação segmentada por personas, incentivando o conteúdo gerado pelo usuário (UGC)
PessoasAlinhamento da equipe entre backstage e on-stage; atendimento humanizado no comércio e no receptivo
ProcessosConsistência e padronização das experiências que se repetem no calendário anual de eventos
Evidências Físicas (Palpabilidade)Conforto tangível: sinalização turística qualificada, banheiros, acessibilidade e tecnologia

“No turismo religioso, o ‘produto’ não é o espaço físico ou o preço, mas sim a experiência transformadora que o destino oferece. Quando entregamos acolhimento, estrutura e verdade, o peregrino deixa de ser apenas um visitante e se torna um embaixador do destino”.
Joel Prado Neto, gerente de marketing da Canção Nova

Espírito Santo: roteiros estruturados e o resgate da história jesuítica

A proprietária da agência de turismo capixaba Pocar Experiências, Larissa Cunha, apresentou seu portfólio de rotas turísticas do Espírito Santo, defendendo a ampla comercialização do patrimônio do seu estado junto às operadoras de viagens do país. O estado, marcado pela forte herança de São José de Anchieta, conta com circuitos consolidados como os Passos de Anchieta, rota de quatro dias abrangendo os municípios de Vitória, Vila Velha, Guarapari/Anchieta e Serra, o roteiro “Entre Fé e História”, e visitas focadas no Santuário Nacional de São José de Anchieta e no conjunto restaurado de Araçatiba.

Retornando ao debate, agora para tratar agora da comercialização desses itinerários, o operador Renato Duarte defendeu que o desenho dos roteiros deve privilegiar a profundidade da vivência em detrimento da quantidade de municípios visitados. Duarte chamou a atenção para a robotização exagerada do atendimento no setor e defendeu o acolhimento centrado no cuidado mais humanizado com o visitante. Para viabilizar esse modelo operacional com controle de riscos, o empresário anunciou a criação da primeira franquia voltada exclusivamente ao turismo religioso no Brasil.

O modelo de acolhimento e infraestrutura do Santuário Nacional de Aparecida

O encerramento do Fórum trouxe os detalhes operacionais do maior complexo mariano da América Latina. Jonatas Veloso, gerente do núcleo de turismo do Santuário Nacional de Aparecida, detalhou as inovações em infraestrutura voltadas a garantir a dignidade e o conforto dos milhões de fiéis que frequentam a basílica anualmente.

Entre os destaques apresentados esteve a inauguração do Espaço do Peregrino, uma estrutura climatizada concebida para o descanso de motoristas de excursão, suporte a motorhomes e atendimento aos cerca de 48 mil romeiros que chegam a pé ao santuário apenas durante o mês de outubro.

Veloso expôs ainda o funcionamento do Centro de Informações Turísticas, que opera 10 roteiros de visitas monitoradas conduzidas por profissionais graduados em História, Teologia e Filosofia, além do anúncio do encerramento das obras da Jornada Bíblica, com a entrega da Fachada Oeste, consolidando o templo como uma das maiores obras de arte sacra a céu aberto do planeta.

Mercado busca maturação profissional

A cobertura do fórum em Vitória evidenciou que o turismo de fé no Brasil vive uma transição decisiva. A integração entre a gestão profissional de grandes santuários, o uso inteligente de dados de impacto socioeconômico, a formação de profissionais e a comunicação assertiva mostram um setor consciente de seu papel econômico, sem perder de vista a essência humana e espiritual que move seus visitantes.

Em novembro, acontece em Congonhas-MG o Fórum Nacional de Turismo Religioso, capitaneado pelo especialista Sidnésio Moura, com apoio do município mineiro. E o PRONTO PRA VIAJAR estará por lá também para conferir.

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